Portugal: algumas estatísticas macroeconómicas

Fonte principal: Eurostat

1 Introdução

Este documento reúne um conjunto de indicadores macroeconómicos para caracterizar a economia portuguesa. O foco está na leitura económica das séries (níveis, ciclos e tendências), deixando o detalhe técnico do código em segundo plano.

1.1 Sobre o documento e como executar

Este ficheiro é um documento Quarto, que combina texto, figuras e código num único relatório reprodutível.

Requisitos

  • Quarto instalado.
  • Python com as bibliotecas pandas, requests, plotly e jupyter-cache.

Como executar

  • Terminal: quarto render portugal_eurostat.qmd (gera o HTML).
  • Pré-visualização: quarto preview portugal_eurostat.qmd (abre um servidor local).

Vantagens para os estudantes

  • Transparência: as figuras são geradas a partir de dados oficiais e atualizáveis.
  • Reprodutibilidade: qualquer pessoa pode regenerar os resultados.
  • Integração: texto, dados e gráficos num único fluxo de trabalho.

2 Dados e notas metodológicas

  • As séries são obtidas via API do Eurostat e são, sempre que disponível, ajustadas sazonalmente.
  • O PIB trimestral é anualizado multiplicando por 4, para facilitar a comparação com valores anuais.

3 Atividade económica

O PIB real mostra o comportamento do ciclo económico, enquanto o PIB nominal agrega também os efeitos de preços. A comparação entre ambos ajuda a separar crescimento real de inflação.

Figura 1: PIB real e nominal (trimestral anualizado).

Como alterar o ano base usando o deflator (passo a passo). Partimos do PIB nominal \(Y_t^{nom}\) e do PIB real \(Y_t^{real}\).

  1. Calcule o deflator implícito: \[ P_t = \frac{Y_t^{nom}}{Y_t^{real}}. \]
  2. Escolha o ano base \(b\) e altere a normalização do deflator: \[ P_t^{(b)} = 100 \cdot \frac{P_t}{P_b}. \]
  3. Re-expresse o PIB real a preços do ano \(b\): \[ Y_t^{real,(b)} = \frac{100 \cdot Y_t^{nom}}{P_t^{(b)}}. \] Assim, \(Y_t^{real,(b)}\) fica em preços do novo ano base e é comparável ao longo do tempo.

Leitura económica:

  • A recessão de 2008-2013 é claramente visível no PIB real, com recuperação gradual no período seguinte.
  • O PIB nominal cresce mais rapidamente em fases de inflação mais elevada, ampliando o desfasamento face ao PIB real.

4 Preços e inflação

A inflação é analisada com duas medidas: o IHPC (preços no consumo) e o deflator do PIB (preços na produção interna). Para medir a variação homóloga usa‑se, por exemplo, \[ \pi_t^{\text{hom}} = \left(\frac{P_t}{P_{t-12}} - 1\right)\cdot 100, \] onde \(P_t\) é o índice de preços no mês \(t\). Esta comparação com o mesmo mês do ano anterior reduz a influência da sazonalidade (saldos, férias, energia) e facilita a leitura das tendências.

Nota sobre sazonalidade. O IHPC não é, em geral, divulgado em versão dessazonalizada. Para analisar variações em cadeia (mês‑a‑mês) ignorando os efeitos da sazonalidade nos preços é necessário dessazonalizar a série. O Eurostat, por exemplo, use o método econométrico TRAMO/SEATS para esse fim.

IHPC vs. deflator do PIB. O IHPC mede a evolução do custo do cabaz de consumo das famílias, incluindo bens importados. Já o deflator do PIB reflete os preços de toda a produção interna (bens e serviços produzidos no país). Por isso, choques externos — como energia ou bens importados — podem elevar o IHPC sem o mesmo impacto no deflator, e alterações nos preços de bens exportados podem afetar o deflator sem mexer diretamente no IHPC.

IPC vs. IHPC (nota breve). O IPC é o índice nacional de preços no consumidor; o IHPC segue uma metodologia harmonizada na UE para garantir comparabilidade entre países. As diferenças são geralmente pequenas, mas refletem regras comuns de cobertura e ponderação.

Figura 2: IHPC e deflator do PIB (níveis e variação homóloga).

Leitura económica:

  • O IHPC capta a inflação sentida pelos consumidores, enquanto o deflator do PIB inclui os preços de toda a produção interna.
  • Em períodos de choques externos (energia, importações), o IHPC pode divergir do deflator.

5 Mercado de trabalho

A taxa de desemprego e as taxas de emprego mostram a evolução do mercado de trabalho e a sua resposta ao ciclo económico.

Em termos simples, a taxa de desemprego é \[ u_t = \frac{U_t}{L_t}\cdot 100, \] onde \(U_t\) é o número de desempregados e \(L_t\) é a força de trabalho (empregados \(E_t\) mais desempregados \(U_t\)). A taxa de emprego é \[ e_t = \frac{E_t}{P_t}\cdot 100, \] onde \(E_t\) é o número de empregados e \(P_t\) é a população do grupo etário considerado.

Figura 3: Mercado de trabalho: desemprego e emprego.

Leitura económica:

  • A crise financeira levou a um pico de desemprego no início da década de 2010.
  • O período pós-2014 mostra recuperação do emprego, com melhoria gradual das taxas de participação.

6 Finanças públicas

Nesta secção olhamos para duas variáveis centrais das contas públicas: o saldo orçamental (B9) e a dívida pública (GD), ambos em percentagem do PIB. Esta normalização facilita a comparação ao longo do tempo e ajuda a perceber a sustentabilidade das finanças públicas.

Um ponto importante é distinguir fluxos e stocks. O saldo orçamental mede um fluxo (receitas menos despesas ao longo do ano), enquanto a dívida é um stock (o valor acumulado num determinado momento). Por isso, a variação anual da dívida não coincide necessariamente com o saldo. O Eurostat contabiliza essa diferença através do ajustamento stock‑fluxo, \(SFA_t\), que capta operações e efeitos que alteram o stock de dívida sem passarem diretamente pelo défice/excedente (por exemplo, aquisição/venda de ativos, privatizações, reavaliações e outros ajustamentos).

Para fixar ideias, definimos \(D_t\) como o stock de dívida nominal, \(Y_t\) como o PIB nominal, \(d_t = D_t/Y_t\), \(B9_t\) como o saldo orçamental (positivo em excedente) e \(g_t\) como o crescimento nominal do PIB, com \(Y_t = Y_{t-1}(1+g_t)\). A identidade nominal de acumulação da dívida é: \[ D_t = D_{t-1} - B9_t + SFA_t. \]

Dividindo por \(Y_t\) e reorganizando (com \(b9_t = B9_t/Y_t\) e \(sfa_t = SFA_t/Y_t\)), obtemos a variação exata da dívida em percentagem do PIB: \[ \Delta d_t = -b9_t + sfa_t - \frac{g_t}{1+g_t}\, d_{t-1}. \]

Em termos simples: um excedente (maior \(b9_t\)) reduz a dívida/PIB, um \(SFA_t\) positivo tende a aumentá‑la, e um maior crescimento nominal (\(g_t\)) reduz \(d_t\) por “diluição” do denominador.

Figura 4: Saldo orçamental e dívida pública (% do PIB).

Leitura económica:

  • O aumento da dívida pública é sobretudo visível após a crise financeira e durante episódios de choque macroeconómico.
  • A transição para excedentes orçamentais em alguns anos recentes indica consolidação fiscal.

7 Setor externo

O setor externo descreve as relações económicas de Portugal com o resto do mundo: quanto exportamos, quanto importamos e como é financiado o diferencial. Numa economia pequena e aberta, estas contas são particularmente informativas porque ajudam a perceber (i) a dependência de procura externa, (ii) a vulnerabilidade a choques de preços internacionais e (iii) a necessidade (ou não) de financiamento externo.

Ao longo do documento, apresentamos as séries em percentagem do PIB, isto é, normalizamos por \(Y_t\). Isto permite comparar períodos diferentes sem ficar “preso” ao tamanho absoluto da economia.

7.1 Exportações e importações

Começamos por uma medida simples de abertura: as exportações \(X_t\) e as importações \(M_t\) (de bens e serviços) em percentagem do PIB. O diferencial corresponde ao saldo de bens e serviços (ou “exportações líquidas”): \[ nx_t = \left(\frac{X_t - M_t}{Y_t}\right)\cdot 100. \] Na figura, a área sombreada entre as duas linhas indica precisamente esse diferencial: azul quando \(X_t \ge M_t\) e vermelho quando \(X_t < M_t\).

Figura 5: Exportações e importações (% do PIB).

7.2 Conta corrente e conta de capital

O comércio de bens e serviços é apenas uma parte do saldo externo. Na balança de pagamentos, a conta corrente agrega (i) bens, (ii) serviços, (iii) rendimento primário (por exemplo, juros e lucros) e (iv) rendimento secundário (transferências correntes). A conta de capital é normalmente menor, mas contribui para o saldo global. Em termos simples: \[ \text{saldo total} = \text{conta corrente} + \text{conta de capital}. \] No gráfico seguinte, as barras mostram as componentes (em % do PIB), com valores positivos acima de zero e negativos abaixo; a linha preta representa o saldo total.

Figura 6: Conta corrente (componentes) e conta de capital (% do PIB).

Leitura económica:

  • Um saldo externo positivo (sumatório da conta corrente com a conta de capital) significa que, nesse período, Portugal é credor líquido face ao resto do mundo; um saldo negativo indica necessidade de financiamento externo.
  • A decomposição em conta corrente ajuda a separar o que vem do comércio internacional (bens e serviços) e do que vem de rendimentos e transferências.
  • Em economias como a portuguesa, é comum o saldo das transacções de serviços contribuir positivamente e compensar, pelo menos em parte, o saldo das transacções de bens.

8 Convergência de rendimento

O PIB per capita de Portugal é mostrado em percentagem da média da UE27 (2020). Para comparação, também é apresentado o rácio face à Alemanha.

Figura 7: PIB per capita relativo (UE27=100).

Leitura económica:

  • Portugal permanece abaixo da média da UE27, embora com períodos de aproximação.
  • A comparação com a Alemanha evidencia um diferencial de produtividade persistente, com alguma aproximação nos útlimos anos.

9 Nota final

As séries apresentadas ajudam a construir uma leitura integrada da economia portuguesa: ciclo real, inflação, mercado de trabalho, setor externo e finanças públicas. Este enquadramento será útil para interpretar acontecimentos históricos e discutir políticas económicas.