Portugal: contas nacionais e macroeconomia
Fontes principais: Eurostat e OECD
1 Introdução
Este documento complementa as estatísticas macroeconómicas para Portugal com foco em:
- Contas nacionais e as três óticas do PIB (despesa, produção e rendimento).
- Parte do trabalho no rendimento agregado (labor share).
- Matrizes de entradas-saídas (input-output) da OECD, com agregação setorial, cálculo de agregados e discussão de pesos de Domar e do teorema de Hulten.
- Relações macroeconómicas: Lei de Okun e Curva de Phillips (IHPC total e inflação subjacente).
Os dados são obtidos (quando possível) diretamente da API do Eurostat e de ficheiros da OECD, e as tabelas/figuras são geradas automaticamente a partir do código incluído no documento.
2 Contas nacionais: Produto interno bruto
O Produto Interno Bruto (PIB) mede o valor da produção final gerada no território num período. O mesmo agregado pode ser obtido de três formas equivalentes (a preços de mercado):
- Despesa: quem compra o produto final (consumo, investimento e saldo externo).
- Produção: quem produz (valor acrescentado por setor + impostos líquidos sobre produtos).
- Rendimento: quem recebe o rendimento gerado (trabalho, capital/rendimento misto + impostos líquidos).
As identidades contabilísticas podem ser escritas como:
\[ \begin{aligned} \text{(Despesa)}\quad Y &= C + G + I + (X - M) \\\\ \text{(Produção)}\quad Y &= \sum_i VA_i + (T_{\text{produto}} - S_{\text{produto}}) \\\\ \text{(Rendimento)}\quad Y &= W + \Pi + (T_{\text{produção}} - S_{\text{produção}}) \end{aligned} \]
onde:
- \(Y\): PIB (a preços de mercado).
- \(C\): consumo final privado (famílias e ISFLSF).
- \(G\): consumo final público (administrações públicas).
- \(I\): investimento (formação bruta de capital fixo, FBCF, e variação de existências).
- \(X\) e \(M\): exportações e importações de bens e serviços.
- \(VA_i\): valor acrescentado do setor \(i\) (produção menos consumo intermédio).
- \(W\): remunerações dos empregados.
- \(\Pi\): excedente de exploração e rendimento misto (remuneração do capital e do trabalho por conta própria, em termos agregados).
- \(T_{\text{produto}}, S_{\text{produto}}\): impostos e subsídios (líquidos) sobre produtos, que fazem a ponte entre preços de base e preços de mercado.
- \(T_{\text{produção}}, S_{\text{produção}}\): impostos e subsídios (líquidos) sobre a produção.
As três óticas coincidem porque toda a despesa sobre um bem final corresponde ao valor do produto final vendido; esse valor é produção interna (valor acrescentado) ou importações, e o valor acrescentado é distribuído como rendimentos primários e impostos líquidos. Na prática pode existir uma pequena discrepância estatística e revisões.
2.1 Despesa
Na identidade \(Y = C + G + I + (X - M)\), o termo \(-M\) (importações) não deve ser lido como “uma despesa negativa que reduz o PIB”. É uma correção contabilística de origem: \(C\), \(G\) e \(I\) medem despesa final (a preços de aquisição) sobre bens e serviços, independentemente de serem produzidos internamente ou importados. Por exemplo, se uma família compra um telemóvel importado, essa compra entra em \(C\), mas não corresponde a produção interna; ao subtrair \(M\), removemos a parcela importada e ficamos com o valor produzido no país. De forma equivalente, \((C+G+I+X)\) mede a procura final total por bens e serviços; subtrair \(M\) isola a parcela produzida internamente.
Por isso, uma subida de \(M\) pode ocorrer com \(Y\) a subir (por exemplo, numa expansão em que a procura aumenta e as importações são pró‑cíclicas) ou com \(Y\) a cair (se importações substituírem produção doméstica, mantendo o resto constante). O ponto central é que \(M\) é um ajuste necessário para medir produção interna, não um mecanismo causal por si só.
Leitura económica
O gráfico mostra as componentes da despesa como percentagem do PIB. Algumas leituras úteis são:
- O consumo privado tende a ser a maior parcela e varia menos do que o investimento; mudanças persistentes podem refletir alterações na poupança das famílias.
- O investimento e a variação de existências são tipicamente as componentes mais voláteis e amplificam o ciclo económico.
- As exportações líquidas \((X-M)\) podem ser negativas (défice comercial) ou positivas (excedente comercial).
Nota adicional: imputações de consumo
Algumas rubricas do consumo são parcialmente imputadas (isto é, registadas mesmo sem transação monetária explícita) para manter a comparabilidade ao longo do tempo e entre países com diferentes regimes de propriedade.
O exemplo central é a renda imputada da habitação própria. Imagine dois vizinhos, cada um proprietário e ocupante da sua casa, e as casas são equivalentes. Num dado ano, decidem trocar a propriedade das casas (A passa a ser dono legal da casa de B e vice‑versa), mas cada um continua a viver exatamente na mesma casa. Para regularizar a situação, assinam contratos de arrendamento cruzado pelo mesmo valor.
Do ponto de vista económico, o serviço de habitação consumido por cada família é essencialmente o mesmo; o que mudou foi apenas o estatuto jurídico e a existência de um pagamento observado. Se as contas nacionais só registassem rendas quando há pagamento monetário, esta mudança faria o consumo medido (e o PIB) aumentar, apesar de não existir mais produção efetiva. A renda imputada evita este tipo de “saltos contabilísticos”: os serviços de habitação dos proprietários‑ocupantes são também contabilizados como consumo (e, simetricamente, como produção e rendimento do setor de habitação), pelo que uma transição entre “proprietário‑ocupante” e “arrendatário” não altera artificialmente o PIB.
No Eurostat, esta componente pode ser vista na desagregação do consumo das famílias por COICOP, na rubrica CP042 (rendas imputadas da habitação). A contraparte na produção encontra-se em P.1 + NACE L (produção de atividades imobiliárias) e no rendimento em S.14 + B.2g (excedente bruto de exploração das famílias).
Porquê não imputar o valor do serviço das refeições preparadas em casa? Por convenção, o PIB procura medir sobretudo produção de mercado (e produção não‑mercado do Estado e de algumas instituições), e exclui a maior parte dos serviços domésticos produzidos e consumidos dentro do agregado (cozinhar, limpar, cuidar de crianças, etc.). Imputar refeições feitas em casa exigiria valorar o tempo de trabalho doméstico e o capital doméstico (cozinha, eletrodomésticos), o que é difícil, heterogéneo e pouco comparável entre países e ao longo do tempo. O mesmo acontece com outros serviços domésticos como cuidados, higiene pessoal, transporte, limpeza, etc..
A habitação própria é uma exceção porque existe um equivalente de mercado muito próximo (o arrendamento), com preços observáveis e grande relevância quantitativa.
Quando se pretende quantificar a produção doméstica (incluindo refeições preparadas em casa), isso é normalmente feito em contas satélite em complemento e não como substituto do PIB (ver abordagem do BEA nos EUA).
2.2 Produção
Na ótica da produção, o ponto de partida é o valor acrescentado bruto (VAB). A ideia é simples: as vendas de uma empresa são muitas vezes as compras (inputs) de outras empresas. Se somássemos “produção” por setores, contaríamos várias vezes o mesmo bem ao longo da cadeia produtiva. O VAB resolve o problema ao subtrair o consumo intermédio (inputs comprados a outras empresas).
De forma esquemática, para um setor \(i\) (ou indústria \(i\)):
\[ X_i = \sum_{j} Z_{ij} + F_i, \qquad CI_i = \sum_{j} Z_{ji}, \qquad VAB_i = X_i - CI_i, \]
onde \(X_i\) é a produção (vendas) do setor \(i\), \(Z_{ij}\) são as vendas intermédias de \(i\) para \(j\) (logo, compras intermédias de \(j\) a \(i\)) e \(F_i\) é a procura final do bem/serviço do setor \(i\). Ao agregar:
\[ Y_{pb} = VAB = \sum_i VAB_i. \]
Este VAB agregado está a preços de base (o que o produtor recebe) e, por isso, coincide com o PIB a preços de base.
Para obter o PIB a preços de mercado (o agregado \(Y\) usado acima, o que o comprador paga), somamos os impostos líquidos sobre produtos:
\[ Y_{pm} = VAB + (T_{\text{produto}} - S_{\text{produto}}), \]
onde \((T_{\text{produto}} - S_{\text{produto}})\) corresponde, na classificação ESA/Eurostat, a (D21 - D31). Na prática, \(T_{\text{produto}}\) (D21) inclui sobretudo o IVA e os impostos especiais de consumo (por exemplo, combustíveis, tabaco e álcool), além de direitos aduaneiros e outros impostos específicos sobre produtos; \(S_{\text{produto}}\) (D31) inclui subsídios ligados a produtos (por unidade), por exemplo em alguns programas na agricultura, energia ou transportes.
No gráfico, apresentamos as contribuições setoriais do VAB e os impostos líquidos, como percentagem do PIB.
Leitura económica
O gráfico decompõe o PIB em contribuições setoriais do VAB (a preços de base) e em impostos líquidos sobre produtos. Algumas leituras úteis são:
- A maior parte do VAB tende a vir de serviços.
- A parte associada à construção, indústria, e agricultura têm registado uma queda ligeira nos últimos tempos.
- A fatia de impostos líquidos sobre produtos mede a diferença entre PIB a preços de mercado e o VAB; mudanças nessa parcela refletem alterações nos impostos/subsídios sobre produtos.
2.3 Rendimento
Na ótica do rendimento, o PIB é visto como a soma do rendimento gerado na produção e distribuído por trabalho, capital (e trabalho por conta própria) e Estado. Em preços dos fatores (ou custo dos fatores), o produto mede apenas o rendimento pago aos fatores produtivos:
\[ Y_{fp} = W + \Pi, \]
onde \(W\) são as remunerações dos empregados (D1), que inclui salários e ordenados (em dinheiro e em espécie) e contribuições sociais a cargo do empregador (incluindo contribuições imputadas); e \(\Pi\) é o excedente bruto de exploração e rendimento misto (B2A3G). Este último agrega, por um lado, o excedente bruto das sociedades (lucros brutos, isto é, antes da depreciação/consumo de capital fixo) e, por outro, o rendimento misto dos trabalhadores por conta própria (onde se mistura remuneração do trabalho e do capital, por exemplo em negócios familiares); inclui também itens como a renda imputada.
Para obter o PIB a preços de mercado (o \(Y\) usado acima), acrescenta-se o diferencial fiscal” entre o que o comprador paga e o que os fatores recebem: os impostos líquidos sobre a produção e importações,
\[ Y_{pm} = Y_{fp} + (T_{\text{produção}} - S_{\text{produção}}), \]
que correspondem, na classificação ESA/Eurostat, a (D2 - D3) (impostos sobre produtos e outros impostos sobre a produção, menos subsídios).
Leitura económica
O gráfico mostra a decomposição do PIB por quem recebe o rendimento:
- Uma maior parcela de D1 significa uma maior parte do trabalho (labor share) no rendimento gerado.
- Uma maior parcela de B2A3G reflete maior peso do rendimento do capital e do trabalho por conta própria (incluindo a renda imputada).
- A parcela de (D2-D3) capta o peso dos impostos líquidos na diferença entre preços dos fatores e preços de mercado.
2.4 Últimas décadas
A tabela seguinte resume, para anos selecionados, as principais componentes das três óticas em % do PIB e indica os códigos utilizados. É uma forma rápida de comparar como a composição do PIB mudou ao longo do tempo.
| 2004 | 2014 | 2024 | |||
|---|---|---|---|---|---|
| Abordagem | Componente | Código | |||
| Despesa | Consumo privado | P31_S14_S15 | 63.7 | 66.1 | 60.9 |
| Consumo público | P32_S13+P31_S13 | 20.4 | 18.4 | 16.9 | |
| Investimento físico | P51G | 23.4 | 15.1 | 20.4 | |
| Variação de existências e valorações | P52_P53 | 0.4 | 0.2 | -0.1 | |
| Exportações líquidas | P6-P7 | -7.9 | 0.1 | 1.8 | |
| Produção | Agricultura, silvicultura e pesca | A | 2.6 | 2.0 | 2.0 |
| Indústria | B-E | 16.0 | 15.3 | 14.3 | |
| Construção | F | 6.2 | 3.6 | 4.4 | |
| Comércio, transportes e alojamento | G-I | 19.6 | 21.5 | 20.3 | |
| Informação e comunicação | J | 3.4 | 3.0 | 4.3 | |
| Atividades financeiras e de seguros | K | 5.8 | 4.6 | 5.5 | |
| Atividades imobiliárias | L | 7.2 | 10.9 | 9.4 | |
| Atividades profissionais e administrativas | M_N | 5.5 | 6.4 | 8.4 | |
| Administração pública, educação e saúde | O-Q | 19.0 | 17.4 | 15.8 | |
| Artes e outros serviços | R-U | 2.2 | 2.5 | 2.6 | |
| Impostos líquidos sobre os produtos | _D21-D31 | 12.6 | 12.7 | 13.0 | |
| Rendimento | Excedente bruto de exploração e rendimento misto | B2A3G | 40.4 | 42.9 | 39.2 |
| Remuneração dos empregados | D1 | 47.5 | 44.3 | 47.7 | |
| Impostos líquidos sobre a produção e importações | D2-D3 | 12.1 | 12.8 | 13.1 |
3 Parte do trabalho no rendimento agregado
A parte do trabalho (labor share) é um indicador simples da distribuição funcional do rendimento: que fração do rendimento gerado na economia remunera o trabalho (assalariado e por conta própria), em comparação com o capital. É útil para discutir tendências de desigualdade, poder de negociação no mercado de trabalho e mudanças tecnológicas/sectoriais.
3.1 Definição e medida
O objetivo é medir a fração do rendimento dos fatores atribuída ao trabalho. Para isso, é útil distinguir o PIB a preços de mercado (\(Y_{pm}\)) do PIB a preços dos fatores (\(Y_{fp}\)), onde
\[ Y_{fp} = Y_{pm} - (T_{\text{produção}} - S_{\text{produção}}) = D1 + B2A3G. \]
Uma razão tentadora, mas não recomendada, é a “ingénua”:
\[ LS^{bad} = \frac{D1}{Y_{pm}}. \]
O problema é que o numerador (\(D1\), remunerações dos empregados) é rendimento do trabalho, enquanto o denominador (\(Y_{pm}\)) inclui também impostos líquidos (que não são rendimento dos fatores). Além disso, o trabalho por conta própria está parcialmente dentro de \(B2A3G\) (rendimento misto), e por isso \(D1/Y_{pm}\) tende a subestimar a parte do trabalho.
Uma medida mínima mais coerente é a não ajustada, que usa um denominador comparável (rendimento dos fatores):
\[ LS^{na} = \frac{D1}{Y_{fp}} = \frac{D1}{Y_{pm} - (D2 - D3)}. \]
Por fim, para incorporar (de forma simples) o trabalho por conta própria, usamos uma correção proporcional ao emprego:
\[ LS^{adj} = LS^{na} \times \frac{EMP}{SAL}, \]
que equivale a assumir que, em média, a remuneração por trabalhador é semelhante entre assalariados e trabalhadores por conta própria: \(\widetilde{D1}/(EMP-SAL)=D1/SAL\) onde \(\widetilde{D1}/(EMP-SAL)\) é o salário médio dos trabalhadores não assalariados. Aqui, \(D2-D3\) são impostos líquidos sobre a produção e importações, \(EMP\) é o emprego total e \(SAL\) o número de assalariados.
Leitura económica
- A diferença entre a série ajustada e a não ajustada depende do peso do trabalho por conta própria (quanto maior \(EMP/SAL\), maior a correção).
- A série “ingénua” (\(D1/Y_{pm}\)) tende a ser mais baixa e pode variar com alterações nos impostos líquidos; por isso não deve ser lida como uma boa medida da repartição entre trabalho e capital.
4 Matrizes de entradas-saídas (input-output)
As matrizes de entradas-saídas descrevem, para um dado ano, como a produção de cada setor é utilizada como consumo intermédio (inputs para outras indústrias) e como é absorvida pela procura final (consumo, investimento, exportações, etc.). Isto permite ligar a ótica da produção do PIB à estrutura das cadeias de valor.
Nesta secção usamos a tabela simétrica da OCDE (Total Table, TTL) para Portugal, no último ano disponível no ficheiro, e agregamos as indústrias em 10 grupos (A, B‑E, F, G‑I, J, K, L, M‑N, O‑Q, R‑U). Na procura final, usamos três agregados: cons* = HFCE + NPISH + DPABR, inv* = GFCF + INVNT e exp* = CONS_NONRES + EXPO.
Como ler a tabela
- Nas linhas, a produção do setor \(i\) (vendas) reparte-se entre vendas intermédias a outros setores e procura final.
- Nas colunas, o custo de produção do setor \(j\) reparte-se entre compras intermédias a outros setores e valor acrescentado (VAB e componentes).
- A linha
VALUagrega para o VAB (PIB a preços de base); ao acrescentar impostos líquidos sobre produtos obtém-se o PIB a preços de mercado (como discutido na secção anterior).
| A | B-E | F | G-I | J | K | L | M-N | O-Q | R-U | cons* | GGFC | inv* | exp* | IMPO | TOTAL | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| A | 2234.7 | 6799.5 | 84.2 | 934.0 | 13.5 | 6.8 | 11.5 | 54.6 | 98.0 | 25.3 | 5333.6 | 8.3 | 576.4 | 1902.9 | -4413.6 | 13669.6 |
| B-E | 3466.0 | 81375.6 | 9333.7 | 17540.6 | 1422.4 | 506.8 | 743.7 | 2502.5 | 6014.8 | 1237.9 | 44539.6 | 1137.7 | 12316.1 | 62638.0 | -81129.8 | 163645.6 |
| F | 192.8 | 1623.9 | 5637.8 | 1186.8 | 156.2 | 95.6 | 1314.8 | 431.8 | 945.7 | 106.8 | 264.5 | 236.4 | 19947.8 | 83.3 | -140.0 | 32084.3 |
| G-I | 1731.0 | 20877.0 | 2896.3 | 14539.4 | 1050.6 | 638.6 | 278.5 | 2252.2 | 3164.6 | 692.4 | 37721.6 | 2746.0 | 4695.5 | 34935.3 | -22195.1 | 106024.1 |
| J | 52.5 | 1705.3 | 258.1 | 2353.0 | 4442.3 | 808.7 | 175.0 | 1878.6 | 1143.4 | 371.1 | 3774.9 | 288.5 | 4856.9 | 5039.6 | -6050.4 | 21097.6 |
| K | 288.4 | 2961.7 | 401.3 | 3026.8 | 411.5 | 3055.5 | 1156.9 | 986.0 | 673.6 | 270.2 | 6138.5 | 281.6 | 288.0 | 1492.8 | -2101.0 | 19331.8 |
| L | 21.3 | 684.2 | 187.1 | 2728.4 | 344.8 | 256.1 | 326.8 | 563.6 | 531.2 | 208.5 | 21279.7 | 60.8 | 4013.9 | 1107.9 | -357.5 | 31956.9 |
| M-N | 373.0 | 7090.5 | 1852.2 | 7968.0 | 2061.8 | 1528.8 | 881.2 | 6214.0 | 2853.6 | 892.5 | 2439.0 | 317.6 | 2185.3 | 6811.8 | -6326.5 | 37143.0 |
| O-Q | 38.2 | 595.1 | 180.2 | 652.7 | 166.9 | 118.9 | 79.5 | 371.2 | 1902.9 | 81.2 | 15524.7 | 38782.1 | 852.4 | 1234.6 | -667.0 | 59913.5 |
| R-U | 17.3 | 242.4 | 51.9 | 354.8 | 151.3 | 56.0 | 21.2 | 186.5 | 185.7 | 832.0 | 8022.3 | 368.6 | 155.3 | 1018.4 | -528.2 | 11135.4 |
| IMP_OTHER | 0.9 | 364.8 | 30.1 | 93.9 | 13.0 | 4.5 | 1.1 | 14.4 | 32.0 | 5.0 | 517.1 | 12.8 | 116.4 | 1206.0 | ||
| TXS_INT_FNL | 394.0 | 2893.7 | 666.5 | 3654.0 | 388.0 | 305.1 | 216.5 | 676.3 | 867.4 | 266.5 | 17521.5 | 535.6 | 2793.2 | 3051.8 | 34230.2 | |
| TTL_INT_FNL | 8809.9 | 127213.8 | 21579.4 | 55032.4 | 10622.4 | 7381.4 | 5206.6 | 16131.8 | 18412.9 | 4989.5 | 163077.2 | 44776.1 | 52797.4 | 119316.4 | -123908.9 | 531438.4 |
| VALU | 4859.7 | 36431.8 | 10504.9 | 50991.7 | 10475.2 | 11950.4 | 26748.4 | 21011.2 | 41500.6 | 6145.9 | 220619.7 | |||||
| LABR | 1600.7 | 19047.1 | 7088.2 | 28736.4 | 6512.0 | 4301.1 | 1170.9 | 13588.6 | 33223.8 | 4285.3 | 119554.1 | |||||
| OTXS | -1081.5 | -126.4 | 18.0 | -408.6 | 21.8 | 495.0 | 886.8 | -194.8 | -1144.0 | -439.0 | -1972.6 | |||||
| CFC | 1058.5 | 8436.2 | 1141.3 | 6946.5 | 2597.5 | 1243.9 | 15753.7 | 3006.4 | 7853.7 | 807.0 | 48844.7 | |||||
| NOPS | 3282.1 | 9074.9 | 2257.5 | 15717.4 | 1343.9 | 5910.4 | 8937.0 | 4610.9 | 1567.0 | 1492.6 | 54193.6 | |||||
| OUTPUT | 13669.6 | 163645.6 | 32084.3 | 106024.1 | 21097.6 | 19331.8 | 31955.0 | 37143.0 | 59913.5 | 11135.4 | 495999.9 |
Leitura económica
- A estrutura fora da diagonal ilustra encadeamentos produtivos: setores que compram muitos inputs a outros setores tendem a ter menor VAB por unidade de produção.
- As colunas de procura final (
cons*,GGFC,inv*,exp*) mostram onde a produção de cada setor é absorvida: consumo privado/público, investimento e procura externa. - A linha
VALUpermite ler diretamente a contribuição setorial para o PIB a preços de base; compararVALUcomOUTPUTdá uma noção da intensidade de valor acrescentado do setor.
Para facilitar a leitura, o quadro seguinte resume os códigos usados e indica se aparecem em linhas e/ou em colunas.
| Descrição | ||
|---|---|---|
| Lin/Col | Código | |
| sim/sim | A | Agricultura, silvicultura e pesca |
| B-E | Indústrias extrativas e transformadoras; eletricidade, gás, água, saneamento e resíduos | |
| F | Construção | |
| G-I | Comércio, transportes, alojamento e restauração | |
| J | Informação e comunicação | |
| K | Atividades financeiras e de seguros | |
| L | Atividades imobiliárias | |
| M-N | Atividades profissionais, científicas e técnicas; atividades administrativas e de apoio | |
| O-Q | Administração pública, educação, saúde e ação social | |
| R-U | Artes, entretenimento e outros serviços; famílias e organizações internacionais | |
| não/sim | cons* | Consumo final das famílias e ISFLSF + compras diretas no estrangeiro (HFCE+NPISH+DPABR) |
| GGFC | Despesa de consumo final das administrações públicas | |
| inv* | Investimento: FBCF + variação de existências (GFCF+INVNT) | |
| exp* | Procura externa: consumo de não residentes + exportações (CONS_NONRES+EXPO) | |
| IMPO | Importações | |
| TOTAL | Total | |
| sim/não | IMP_OTHER | Importações (outras) |
| TXS_INT_FNL | Impostos líquidos de subsídios sobre produtos (consumo intermédio + procura final) | |
| TTL_INT_FNL | Total (consumo intermédio + procura final) | |
| VALU | Valor acrescentado bruto (VAB) | |
| LABR | Remunerações dos trabalhadores | |
| OTXS | Outros impostos líquidos de subsídios à produção | |
| CFC | Consumo de capital fixo | |
| NOPS | Excedente de exploração líquido | |
| OUTPUT | Produção |
4.1 Extracção de agregados das IOT
Usando a tabela agregada iot_prt_ttl_broad (OCDE, tabela simétrica TTL), podemos extrair diretamente alguns agregados.
Seja \(\mathcal{S}=\{\text{A},\text{B-E},\text{F},\text{G-I},\text{J},\text{K},\text{L},\text{M-N},\text{O-Q},\text{R-U}\}\) o conjunto dos setores agregados.
Output do setor \(i\):
\[ X_{i} = \text{TTL\_INT\_FNL}_{i} + \text{VALU}_{i} = \text{TOTAL}_{i}. \]
VAB (valor acrescentado) do setor \(i\):
\[ VA_i = \text{VALU}_i. \]
VAB agregado:
\[ VA = \sum_{i\in\mathcal{S}} \text{VALU}_i. \]
Output agregado (duas formas equivalentes):
\[ X = \sum_{i\in\mathcal{S}} \text{TOTAL}_i = \text{TTL\_INT\_FNL}_{\text{TOTAL}} - \text{TXS\_INT\_FNL}_{\text{TOTAL}} - \text{IMP\_OTHER}_{\text{TOTAL}}. \]
PIB a preços de base / fatores / mercado:
\[ \begin{aligned} Y_{pb} &= \text{VALU}_{\text{TOTAL}}, \\\\ Y_{fp} &= \text{LABR}_{\text{TOTAL}} + \text{CFC}_{\text{TOTAL}} + \text{NOPS}_{\text{TOTAL}}, \\\\ Y_{pm} &= \text{VALU}_{\text{TOTAL}} + \text{TXS\_INT\_FNL}_{\text{TOTAL}}. \end{aligned} \]
Alternativamente, pela linha
TTL_INT_FNL:\[ Y_{pm} = \sum_{f\in\{\text{cons*},\text{GGFC},\text{inv*},\text{exp*},\text{IMPO}\}} \text{TTL\_INT\_FNL}_{f} \;-\; \text{IMP\_OTHER}_{\text{TOTAL}}. \]
| Medida | Valor | % do VAB |
|---|---|---|
| 1) Output do setor i (ex.: B-E = TOTAL[B-E]) | 163,645.6 | 74.2 |
| 1) Output do setor i (ex.: B-E = TTL_INT_FNL[B-E] + VALU[B-E]) | 163,645.6 | 74.2 |
| 2) VAB do setor i (ex.: B-E = VALU[B-E]) | 36,431.8 | 16.5 |
| 3) VAB agregado (soma de VALU nos setores) | 220,619.7 | 100.0 |
| 4) Output agregado (soma de TOTAL nos setores) | 496,001.9 | 224.8 |
| 4) Output agregado (TTL_INT_FNL - TXS_INT_FNL - IMP_OTHER) | 496,002.1 | 224.8 |
| 5) PIB a preços de base (VALU[TOTAL]) | 220,619.7 | 100.0 |
| 5) PIB a preços dos fatores (LABR + CFC + NOPS) | 222,592.4 | 100.9 |
| 5) PIB a preços de mercado (VALU + TXS_INT_FNL) | 254,850.0 | 115.5 |
| 5) PIB a preços de mercado (linha TTL_INT_FNL, cons*..IMPO - IMP_OTHER[TOTAL]) | 254,852.2 | 115.5 |
O output ou produção bruta de um setor (\(X_i\)) inclui tanto vendas para procura final como vendas intermédias para outras indústrias. Por isso, ao somar \(X_i\) por setores, contamos várias vezes os mesmos bens/serviços ao longo da cadeia (um input produzido por \(i\) é incorporado no output de \(j\)).
Esta ideia pode ser vista na identidade contabilística:
\[ \sum_{i} X_i = \sum_i VA_i \;+\; \sum_{i}\sum_{j} Z_{ij}, \]
onde \(VA_i\) é o valor acrescentado do setor \(i\) e \(Z_{ij}\) são vendas intermédias de \(i\) para \(j\). Como as transações intermédias \(\sum_{i,j} Z_{ij}\) são positivas, o output agregado \(\sum_i X_i\) é tipicamente maior do que o VAB agregado \(\sum_i VA_i\).
Isto motiva a introdução dos ponderadores de Domar, definidos como:
\[ d_i = \frac{X_i}{VAB}. \]
A coluna Output(i) % do VAB na tabela seguinte corresponde a \(100\times d_i\). A soma dos pesos (linha “TOTAL”) pode ser superior a 100%, refletindo precisamente a presença de consumo intermédio e encadeamentos produtivos.
| Setor | VAB(i) | VAB(i) % do VAB | Output(i) | Output(i) % do VAB |
|---|---|---|---|---|
| A | 4,859.7 | 2.2 | 13,669.6 | 6.2 |
| B-E | 36,431.8 | 16.5 | 163,645.6 | 74.2 |
| F | 10,504.9 | 4.8 | 32,084.3 | 14.5 |
| G-I | 50,991.7 | 23.1 | 106,024.1 | 48.1 |
| J | 10,475.2 | 4.7 | 21,097.6 | 9.6 |
| K | 11,950.4 | 5.4 | 19,331.8 | 8.8 |
| L | 26,748.4 | 12.1 | 31,956.9 | 14.5 |
| M-N | 21,011.2 | 9.5 | 37,143.0 | 16.8 |
| O-Q | 41,500.6 | 18.8 | 59,913.5 | 27.2 |
| R-U | 6,145.9 | 2.8 | 11,135.4 | 5.0 |
| TOTAL | 220,619.7 | 100.0 | 496,001.9 | 224.8 |
4.2 O teorema de Hulten
O teorema de Hulten (Hulten, 1978) liga a produtividade agregada às produtividades setoriais numa economia. Em termos simples, o crescimento da produtividade agregada pode ser escrito como uma média ponderada do crescimento da produtividade total dos fatores (PTF/TFP) dos setores:
\[ \Delta \ln Y \;\approx\; \sum_i d_i\,\Delta \ln A_i, \qquad d_i \equiv \frac{X_i}{VAB}, \]
onde \(A_i\) é a produtividade do setor \(i\) e \(d_i\) é o ponderador de Domar: o output bruto do setor (\(X_i\)) em percentagem do VAB agregado. Estes pesos podem somar mais de 1 (mais de 100%) porque o output inclui transações intermédias ao longo da cadeia produtiva.
Porque isto é relevante para a Indústria (B‑E)? Mesmo que a Indústria represente uma fração moderada do VAB, pode ter um peso de Domar elevado porque vende muitos inputs intermédios ao resto da economia. No nosso caso, B‑E tem VAB(i) = 36,431.8 milhões USD e representa 16.5% do VAB (coluna VAB(i) % do VAB), mas o seu peso de Domar é 74.2% do VAB (coluna Output(i) % do VAB). Assim, um ganho de produtividade em B‑E tem um efeito agregado potencialmente grande.
5 Algumas relações macroeconómicas
Nesta secção ilustramos duas regularidades empíricas frequentemente usadas para interpretar o ciclo: a Lei de Okun (atividade e desemprego) e a Curva de Phillips (inflação e desemprego). Ao contrário das identidades das contas nacionais, estas relações não são identidades contabilísticas: são correlações que podem variar ao longo do tempo com instituições, expectativas e choques.
5.1 Lei de Okun para Portugal
A Lei de Okun resume a ideia de que, quando a atividade económica acelera, o desemprego tende a cair (e vice‑versa). Em forma reduzida:
\[ \Delta u_t^{yoy} = c + b\,g_t^{yoy} + \varepsilon_t, \]
onde \(g_t^{yoy}\) é o crescimento real do PIB (variação percentual face ao mesmo trimestre do ano anterior) e \(\Delta u_t^{yoy}\) é a variação da taxa de desemprego em pontos percentuais (face ao mesmo trimestre do ano anterior). No gráfico usamos dados trimestrais para Portugal (desemprego 15–74 anos, ajustado sazonalmente) e restringimos a amostra a \(t<2020\) para evitar o período pandémico.
Leitura económica
- Em geral, recessões aparecem no quadrante “PIB a cair / desemprego a subir”, enquanto expansões aparecem em “PIB a subir / desemprego a cair”.
- A inclinação estimada (\(b\)) mede, aproximadamente, quantos pp o desemprego varia quando o PIB cresce mais 1 p.p. em termos homólogos; a dispersão dos pontos reflete choques (participação, produtividade, políticas) e possíveis mudanças estruturais.
5.2 Curva de Phillips para Portugal
A Curva de Phillips liga inflação e desemprego: com procura mais forte (mercado de trabalho mais “apertado”), a inflação tende a subir; com mais folga, tende a abrandar. Em forma reduzida:
\[ \pi_t^{yoy} = c + b\,u_t + \varepsilon_t, \]
onde \(\pi_t^{yoy}\) é a inflação homóloga (%) e \(u_t\) é a taxa de desemprego (%).
Abaixo mostramos duas versões (Portugal, desde 1999): (i) IHPC total (headline, CP00), mais sensível a choques de energia/alimentos; (ii) IHPC subjacente (core, TOT_X_NRG_FOOD), que exclui energia e alimentos e tende a captar melhor pressões domésticas. A inflação é calculada como a variação homóloga do índice de preços.
Leitura económica
- Se a relação for sobretudo conduzida por procura, espera‑se uma inclinação negativa (\(b<0\)). Na prática, choques de oferta (por exemplo, energia) podem deslocar a inflação sem grandes movimentos no desemprego, enfraquecendo a correlação na versão headline.
- A versão core tende a ser menos volátil e, muitas vezes, a mostrar uma relação mais estável com o desemprego.